quinta-feira, 27 de agosto de 2015

Décima leitura: "Confissões", de Sto. Agostinho

Enfim, sobre Sto. Agostinho, CARPEAUX nos diz o seguinte:

“Chegou, enfim, o momento em que a aliança entre a Igreja e as letras pagãs se rompeu: na realidade, porque o Império caiu; na literatura, porque um espírito poderosíssimo destruiu o equilíbrio.

Agostinho é uma das maiores personalidades da literatura universal; muitos, porém, não o considerarão ‘simpático’, e a culpa é dele mesmo. É o destino de todos os que, como ele nas Confissões e mais tarde Rousseau e Strindberg, contaram com sinceridade irreverente a própria vida: a mocidade devassa, o estágio entre os adeptos da estranha seita dos maniqueus, os estudos de retórica e a vida literária, os remorsos e angústias que duraram anos terríveis, enfim a conversão, a vocação sacerdotal, o bispado, as lutas contra heréticos de toda a espécie, as vitórias políticas; no fim da vida, Agostinho é ‘magnus sacerdos’, o rei episcopal da África cristã, morrendo no momento em que a sua província e a sua Igreja se desmoronavam sob os golpes dos bárbaros.

Este homem de atividades extraordinárias é um introspectivo. ‘Surgunt indocti et rapiunt regnum coelorum, nos autem, cum nostris litteris, mergimur in profundum’ [Os ignorantes elevam-se e raptam (conquistam) o reino dos céus; mas nós, com nossos escritos, mergulhamos nas profundezas]. Eis o lema da sua vida ativa. E o lema da sua vida contemplativa foi a advertência de procurar a Verdade dentro da própria alma: ‘Noli foras ire, in te ipsum redi; in interiore hominis habitat veritas’ [Não queiras ir para fora, mas retorna para dentro de ti mesmo; é no interior do homem que habita a Verdade].

Os efeitos dessa atitude ambígua são fatalmente contraditórios. No mundo exterior, em que a anarquia destrói uma civilização inteira, Agostinho sabe impor a sua autoridade espiritual de bispo, sabe restabelecer a ordem. No mundo interior, sacodem-no ‘tormenta parturientis cordis mei’, reina a noite da anarquia espiritual, iluminada pelos raios dolorosos da graça que se impõe.

Agostinho é um anarquista procurando a ordem, sabendo que precisa nascer outra vez, como homem diferente. É da raça dos ‘twice born’, à qual pertencem os maiores gênios religiosos da Humanidade, um Paulo, um Lutero, um Pascal. Para justificar perante Deus e os homens a sua natureza ambígua, o teólogo Agostinho tem de responsabilizar uma força exterior e mais forte que as suas próprias forças: a Graça, esse seu conceito teológico que será, depois, suscetível de tantas interpretações ambíguas. Esse homem fortíssimo precisa sempre de um apoio de fora: daí provém a sua confiança ilimitada na autoridade da Igreja Romana; daí o seu susto em face da catástrofe do Império, daí a necessidade imperiosa de substituir a derrotada ‘civitas terrena’ pela ‘civitas Dei’, objeto do seu grande mito filosófico-histórico.

Agostinho está contra o Império e não pode viver fora do Império: é um romano. O que o distinguiu, porém, dos outros romanos foi ser um santo, e a demonstração disso está no ‘humano, humano demais’ das Confissões. Um santo não é um anjo, e sim um homem. Agostinho foi o primeiro, em todos os tempos, a expor a sua humanidade fraca, falível e até antipática, pelo lirismo exuberante e efusivo daquele grande livro. Para a literatura universal, é o Colombo de um novo continente. Para a sua época, encerra uma fase decisiva [a segunda das três distinguidas no começo; cf. post anterior] da evolução da mentalidade cristã, e inicia outra fase: após a queda definitiva do Império, o cristianismo retira-se para dentro dos muros da Igreja, e a nova alma encontra a sua nova expressão: eleva-se o hino”.


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Na pasta de arquivos online, há um PDF com o texto completo das Confissões: https://www.dropbox.com/home/Grupo%20de%20Estudo%20e%20Leitura%20dos%20Cl%C3%A1ssicos/2%C2%BA%20semestre%20(2015)/Scans%20e%20PDFs

O cristianismo e o mundo: literatura patrística

Sobre os primórdios do Cristianismo e seus escritores, CARPEAUX nos diz:

“As obras dos escritores cristãos do século V, que foi o século da grande catástrofe, estão cheias de lamentações sobre a situação do mundo mediterrâneo. As cidades estão destruídas, desertos os campos, foram depostas as autoridades, vazias estão as escolas. ‘A cultura das letras’, dirá o bispo e historiógrafo Gregório de Tours, ‘agoniza, ou antes, desaparece nas cidades de Gália. No meio de atos bons ou ruins, quando a ferocidade das nações e o furor dos reis estão desencadeados, quando a Igreja é atacada pelos heréticos e defendida pelos fiéis, e quando a fé cristã, ardente em muitos corações, enfraquece em outros, quando as instituições religiosas são saqueadas pelos perversos, então não se encontrou nenhum homem de letras para descrever esses acontecimentos, nem em prosa, nem em verso. E muitos dizem, gemendo: Ai do nosso tempo, porque o estudo das letras desaparece entre nós, e ninguém é capaz de descrever as coisas desta época’.

[...] Os escritores cristãos que se exprimiram assim fizeram o papel do advocatus diaboli. [...] Havia outros espíritos, capazes de ‘descrever as coisas desta época’. Porque neles um novo conteúdo enchera as formas gramaticais da velha língua; eram eles mesmos, aqueles escritores cristãos.

É verdade que o Ocidente teve de experimentar uma catástrofe, uma interrupção quase total de todas as atividades espirituais; mas essa catástrofe veio alguns séculos depois. Um observador imparcial, não perturbado pela nostalgia convencional do ‘paganismo alegre’, nem pela mentalidade apocalíptica dos escritores eclesiásticos, admitirá a existência de uma notável atividade literária nos séculos do cristianismo vitorioso e da invasão dos bárbaros; de uma literatura rica, embora não grande, que contou com personalidades tão extraordinárias como Jerônimo e Agostinho, que criaram formas inteiramente novas de expressão literária, nos hinos da Igreja, e que criaram, enfim, uma das maiores obras, das mais permanentes da literatura universal de todos os tempos: a liturgia romana.

A mentalidade cristã dos primeiros séculos percorreu três fases distintas, coordenadas como uma evolução dialética. No período das catacumbas, o espírito cristão é de uma introversão tão completa que a expressão se torna silêncio; adivinhamos esse estado de almas nas inscrições lacônicas e, contudo, eloquentes, dos túmulos nas catacumbas; e, com eloquência maior, no silêncio das grandes basílicas romanas, como San Paolo fuori le mura. A segunda fase é a do encontro do cristianismo com o mundo: a literatura patrística. A terceira fase, após a queda definitiva do Império, é o novo ensimismamiento: o cristianismo se retira para dentro dos muros das igrejas, para encontrar aí a sua expressão genuína: os hinos e a liturgia”.

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CARPEAUX faz então uma distinção entre duas definições que nos será bastante esclarecedora mais adiante, que é a seguinte:

“O encontro com o mundo pagão estava preparado pelos Padres da Igreja oriental. Lá, no Oriente, o compromisso deu origem a uma nova literatura, independente, que não pertence ao mundo ocidental: a literatura bizantina. No Ocidente, criou-se uma literatura de transição, com determinados objetivos de apologia dogmática e historiografia eclesiástica: a literatura patrística”.

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Já sobre o primeiro autor dessa literatura patrística, TERTULIANO, nos diz CARPEAUX:

“O são João Batista dessa literatura era o grande herético africano Tertuliano. O seu Apologeticum, que pretende ser a defesa da religião cristã contra os pagãos, é mais ataque do que defesa. Esse polemista terrivelmente agressivo irrita-se contra todos: contra as autoridades romanas que fazem mártires, contra os perseguidos que fogem ao martírio, contra os mártires que morrem sem a fé ortodoxa, contra a ortodoxia que violenta as consciências; o próprio Tertuliano acabou como herético. Mas a sua heresia não é de origem doutrinária, é antes de ordem moral. Revolta-se contra a indulgência com a qual bispos e sacerdotes tratam os cristãos que participaram das festas romanas, que não mandam velar o rosto às suas filhas, que toleram em casa qualquer vestígio do naturalismo sexual dos greco-romanos, e que chegam ao cúmulo de frequentar os teatros, esses ‘consistoria impudicitiae’ [assembléia de lascivos, ou assembléia dos sem-vergonha].
            Neste momento, o moralista revela-se como da família dos puritanos ingleses que mandaram fechar os teatros. Tertuliano lembra os predicadores calvinistas que ameaçam os ‘servos de Baal’ com citações terrificantes do Velho Testamento, ou lembra os próprios profetas do Velho Testamento. O seu estilo violento, artificial, obscuro, revela-lhe as origens africanas. Tertuliano é um Apuleio às avessas, um individualista furioso, um dos maiores escritores de língua latina e um romano autêntico”.

Depois, sobre Sto. AMBRÓSIO, diz CARPEAUX:

“A quase todos os grandes Padres da Igreja ocidental se pode conferir o mesmo título de ‘romano autêntico’, que já se deu a Ambrósio, o poderoso bispo de Milão, ao qual a tradição atribui a criação do hino litúrgico. Ambrósio era natural da Gália, da mais romana das províncias romanas. Em De Officiis ministrorum apresenta um sistema bem organizado, quase em parágrafos, da conduta moral do clero; aplicação razoável da moral estoica do De officiis, de Cícero.

Ambrósio era o primeiro a obedecer aos seus próprios conselhos. Sabia reunir imperialismo eclesiástico e dignidade sacerdotal tão bem como um senador romano sabia reunir política de anexação e dignidade humana. Grandes quadros, nas igrejas do catolicismo pós-tridentino, representam a cena em que Ambrósio, recebendo em Milão o imperador Teodósio, culpado de assassínio, lhe nega a entrada na basílica. Ambrósio era mais homem de ação do que escritor; nisso, também, é romano”.

Sobre São JERÔNIMO, diz CARPEAUX:

“Escritor, literato até, é Jerônimo. Homem de vastas atividades, quase febris, fazendo inúmeras viagens, escrevendo, traduzindo, comentando, trocando cartas com papas e religiosas, dando conselhos a toda a gente, grande trabalhador, que acabou seus dias num convento, no deserto da Judéia. Odiava a literatura pagã, na qual fora educado, e é o literato mais típico entre os Padres da Igreja. A sua maior obra é um trabalho de estilística, a tradução latina da Bíblia, a Vulgata, que alcançou autoridade canônica na Igreja Romana.

Com essa obra, Jerônimo criou uma língua nova e uma nova literatura. Prestou ao latim medieval o serviço que os poetas da idade augustana tinham prestado à literatura imperial, naturalizando em Roma as letras gregas. Durante mais de um milênio, a Europa inteira rezou na língua de Jerônimo, que é, contra a sua vontade, a língua de Virgílio, e não inteiramente indigna dele. A Vulgata é a Eneida do cristianismo. Jerônimo, anti-humanista furioso, é o primeiro grande humanista europeu. Valéry Larbaud exalta o autor da Vulgata como o rei ou padroeiro de todos os tradutores”.

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Fim de Roma: lista de obras e autores romanos

Assim como quando finalizamos a era grega, ao chegarmos ao final da era romana podemos extrair dos escritos de CARPEAUX uma lista de autores e obras que ele comenta em seu estudo e que podemos tomar por resumo do que melhor se escreveu naquela época. Abaixo, segue uma versão dessa lista, junto de alguns comentários do próprio CARPEAUX a respeito dos autores, ou seja, sua fortuna crítica:

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JÚLIO CÉSAR
“Não é escritor profissional”; “Só escreve para explicar os seus fins políticos”.
            Commentarii de Bello Gallico
            Commentarii de Bello Civili

VITRÚVIO POLIÃO
“É criador daquela arquitetura oficial que até hoje forma os centros das nossas capitais”.
            De architectura

SALÚSTIO
“Historiador inexato”; “estilista artificial e obscuro”; “de vez em quando atualíssimo”; “o maior observador da literatura romana”.
            De coniuratione Catilinae
            De Bello Iugurthino

CÍCERO
“Jornalista, advogado, político”; “é literato”; “exerceu uma influência universal”; “sua influência criou o tipo do homme de lettres”.
            Pro Milone
            Filípicas
            Academica
            Tusculanae disputationes
            Cato Maior seu De senectute (Da velhice)
            Laelius seu De amicitia (Da amizade)
            De officiis

LUCRÉCIO
“É um mestre”; “pretende ensinar, convencer”; “[nele] encontram-se quase todas as teorias do positivismo científico”; “seria um grande erudito, se não fosse um grande poeta”.
            De rerum natura

CATULO
“É um poeta muito humano”; “um poeta moderno”; “o primeiro que se comove com a paisagem”; “o leitor moderno [o] sente como um irmão”.
            Elegias

PROPÉRCIO
“A imitação dos modelos gregos sufoca-o”; “depois de havermos lido uma imitação genial de Propércio [...] as Elegias romanas de Goethe [...] descobrimos a flama da sua paixão”.
            Elegias

OVÍDIO
“Virtuose [...] Sabe fazer tudo”; “um artista elegante, um parnasiano”; “tornou-se o poeta mais lido da Idade Média”; “o mais moderno dos poetas da Antigüidade”.
            Amores
            Heroides
            Arte de amar
            Remedia amoris
            Metamorfoses
            Tristes
            Epistolae ex Ponto

HORÁCIO
“O maior entre os poetas menores: sensível sem sentimentalismo, alegre sem excesso, espirituoso sem prosaísmo”; “o mais completo dos poetas romanos”; “poet’s poet”.
            Odes
            Epodos
            Sátiras
            Epístolas
            Arte poética
            Ad Pisonem

TITO LÍVIO
“Impulso de idealizar a história romana”; “é inexato”; “salvou-se pelo idealismo”.
            Ab urbe condita

VIRGÍLIO
“Um artista incomparável do verso da música das palavras”; “é difícil imaginar perfeição maior que os versos virgilianos”; “é ‘pai do Ocidente’ num sentido muito amplo”.
            Geórgicas
            Bucólicas
            Eneida

LUCANO
“O primeiro estóico autêntico da literatura romana”; “poeta da grande cólera”; “o primeiro poeta que pensou em basear uma epopeia em acontecimentos históricos”.
            Farsália

SENÊCA
“O cristianismo, em sua atitude ética, foi profundamente influenciado pelo [seu] estoicismo”; “[sua] filosofia estóica é uma tentativa apaixonada de vencer a angústia que se exprime nas suas tragédias”.
            Diálogos
            Cartas a Lucílio
            Tragédias

QUINTILIANO
“O grande mestre-escola da literatura romana, sistematizador do gosto arcaizante da ‘oposição’ conservadora”.
            Instituto Oratoria

PETRÔNIO
“Nem sempre temos a coragem de dizer a verdade com o [seu] realismo [e] seu riso espirituoso”; “[sua] obra é de estranha e alegre atualidade”.
            Satyricon

JUVENAL
“Estóico duro só pretende dizer a verdade”; “encontra as palavras mais justas, mais definitivas”; “expressões de um profeta bíblico”; “a voz da consciência romana”.
            Sátiras

SUETÔNIO
“Conta crimes horrorosos [...] com a frieza de um autor de relatórios oficiais”; “sem vontade de mentir, nem sempre diz a verdade”.
            A vida dos Doze Césares

TÁCITO
“É burguês e intelectual, preocupado com a decadência da retórica”; “[seu tema é] o comportamento do indivíduo livre em face da tirania e do aviltamento geral”.
            Dialogus de oratoribus, sive de causis corruptae eloquentiae
            Germânia
            Histórias
            Anais

LUCIANO
“É um jornalista”; “[seu] mundo é um caos espiritual”; “é um grande humorista [...] mas não é um satírico, porque não conhece critério moral”.
            Deorum concilium
            De mercede conducti
            Menippus
            Icaromenippus
            Mortuorum dialogi

APULEIO
“É um grande literato”; “é uma figura da época”; “[é de] insinceridade inata [e] habilidade de narrador”.
            Metamorphoseon seu Asinus aureus

MARCO AURÉLIO
“Homem de ação e escritor ao mesmo tempo”; “último dos grandes individualistas romanos, anota os movimentos da sua alma solitária”; “sinceridade de um grande poeta”.
            Meditações

BOÉCIO
“Não pergunta pelo Império, está preocupado apenas com a sua própria alma”; “é individualista, é romano”; “o livro preferido dos espíritos estoicos de todos os tempos”.
            A consolação da filosofia
            De Trinitate
            Tratados de geometria e música

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O último romano: Boécio. Nona leitura: "A consolação da filosofia"

Sobre Boécio, “o último dos romanos”, CARPEAUX nos diz:

“No Ocidente, o compromisso entre cristianismo e civilização pagã foi concluído pelos inimigos apaixonados dessa civilização: Tertuliano, Ambrósio, Jerônimo, Agostinho, os Padres da Igreja latina. Mas estes já são homens ‘modernos’. O último romano cristão é Boécio.

Mas seria Boécio um cristão? Existem tratados teológicos de sua autoria: De Trinitate, Contra Eutychen et Nestorium, e outros. Mas nas obras mais importantes de Boécio, até na Consolatio Philosophiae, que trata de Deus e do destino humano, não se encontra a mínima alusão ao cristianismo. Boécio é romano pela atitude; pertenceu ao círculo ilustrado em que o poeta Sidônio Apolinário fez versos pitorescos, e em que Cassiodoro, acumulando tesouros de manuscritos na sua vila ‘Vivarium’, preparou os caminhos para a ordem de São Bento. São os monges da civilização pagã, monges do estoicismo. Boécio suportou assim a prisão, na qual escreveu a Consolatio, e a morte pelo carrasco germânico. Cristão, Boécio não o é, a não ser pela confissão dos lábios. Mas já é homem medieval. Com toda a razão, a Idade Média irá escolher os seus tratados sobre geometria e música como base do ensino superior e encontrará nos seus comentários aristotélicos e neoplatônicos o problema escolástico dos ‘Universalia’”.

Sobre sua clássica obra, “A consolação da filosofia”, diz CARPEAUX:

“Na Consolatio Philosophiae, um homem de mentalidade medieval acalma as suas angústias com as respostas da filosofia estoica. São perguntas de um monge medieval – sobre a injustiça no mundo e a Providência divina – mas a resposta é dada pelo aparecimento de uma visão, que se dá a conhecer com a ‘Philosophia’. Por isso, a Consolatio ficou sendo o livro preferido dos espíritos estoicos de todos os tempos, que não se sentiam sujeitos, no foro íntimo, à religião cristã: Boécio era o manual do laicismo entre os heréticos da Provença, entre os humanistas do Quattrocento, entre os eruditos do Barroco, que fugiram das guerras de religião.

Contudo, Boécio não é moderno, nem medieval, nem cristão herético, nem cristão sans phrase. Em face da catástrofe do mundo antigo, um grande cristão, Santo Agostinho, tinha justificado a obra da Providência divina por uma grandiosa filosofia da História, explicando o advento e a queda dos impérios. O romano Boécio não pergunta pelo Império. Está preocupado apenas com a sua própria alma. É individualista, é romano. A Consolatio Philosophiae é um pendant das Meditações de Marco Aurélio, apenas sem medo da morte. Na sua última hora – que foi a última hora de um mundo magnífico e que pereceu incompreensivelmente – Boécio pôde repetir as palavras com as quais o imperador-filósofo terminara livro e vida:

Ó homem, foste cidadão nesta grande cidade, e que importa se passaste aqui cinco anos ou trinta? O que é conforme à lei, não é duro para ninguém. Será tão terrível se a mesma Natureza que te mandou para esta cidade, agora te manda sair? É como se um ator fosse demitido pelo mesmo pretor que o chamou. ‘Mas não representei todos os cinco atos da peça e sim apenas três!’. Bem; mas, na vida, três atos já constituem uma peça completa, pois o fim é determinado por aquele que outro dia iniciou a representação e hoje a termina. Começo e fim não dependem de ti. Então, despede-te com ânimo sereno; ele, que te despede, também é sereno”.


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Na pasta de arquivos online, há um PDF do Livro III de "A consolação da filosofia" em português:
https://www.dropbox.com/home/Grupo%20de%20Estudo%20e%20Leitura%20dos%20Cl%C3%A1ssicos

quinta-feira, 28 de maio de 2015

Os opositores da decadência romana. Oitava leitura: "Meditações", de Marco Aurélio

CARPEAUX havia dito que, com Horácio e Virgílio, acabaram-se as tentativas de poesia de interesse coletivo, ou seja, que desde então, toda a literatura romana está na oposição individualista, com certa resignação estóica, de uma gente culta que se põe sempre contra o despotismo dos Césares. Isto, segundo ele, não é um fenômeno meramente transitório, mas exprime o caráter íntimo da literatura romana, que quase nunca acreditou seriamente na possibilidade de penetrar na realidade hostil, e que acabou retirando-se para uma região na qual se fundem individualismo, intelectualismo, temperamento elegíaco e resignação estoica. São esses traços, portanto – ao menos para CARPEAUX –, a essência mesma de uma “última fase” agonizante da literatura romana.

A seguir, CARPEAUX comenta uma série de retóricos, poetas, prosadores, biógrafos e historiadores – literatos romanos “da última hora”, que exemplificam, de uma forma ou de outra, o diagnóstico que deu acima; seriam como que os opositores da decadência. Resumindo um pouco as análises, temos o seguinte:

“O sentido político da oposição está claro em Lucano, que morreu como conspirador contra Nero. A Farsália é hoje pouco lida; já não se leem as epopeias históricas, e certos manuais chegam a considerar Lucano como sucessor fraquíssimo de Virgílio. Nada mais errado. Apesar da diferença dos temperamentos, é Lucano de uma originalidade absoluta; foi o primeiro poeta que pensou em basear uma epopeia em acontecimentos históricos, até em acontecimentos do passado imediato. Lucano descreve [...] o fim da República Romana. O assunto histórico-político implica o abandono do aparelho mitológico: nesse sentido a Farsália é uma criação sui generis na literatura universal; nem Voltaire teve essa coragem. E Lucano é corajoso. Ousa tomar atitude contra o César, opondo-se ao consenso do mundo e dos séculos. [...] É um poeta da grande cólera, como poucos na literatura universal, um satírico vigoroso, um mestre do desprezo altivo. A indignação moral e a coragem política têm raízes no seu credo estoico. Lucano é o primeiro estoico autêntico da literatura romana – daí a sua linguagem violenta”.

Sêneca é homem da ação também; mas a situação da ‘opposition sous les Césars’ explica bem que na sua vida a atividade literária e a atividade política estejam separadas, encontrando-se só no final, quando o político obedeceu ao conselho do literato estoico, suicidando-se. Dentro da sua atividade literária existe separação semelhante: entre os escritos filosóficos e as tragédias. Estas, as únicas tragédias romanas que subsistem, são obras de epígono; versões fortemente retóricas de peças gregas, substituindo a vida dramática por efeitos brutais, assassínios no palco, aparições de espectros vingadores, discursos violentos, cheios de brilhantes lugares-comuns filosóficos; até nas situações mais trágicas as personagens soltam trocadilhos espirituosos, de ironia cruel.

O filósofo Sêneca é como se fosse outra pessoa. Escreve em estilo coloquial, embora com energia apaixonada, violando a sintaxe, acumulando as elipses. A moral que recomenda ao seu correspondente Lucílio [...] é o estoicismo. Mas Sêneca está longe da imperturbabilidade estoica que professa. Está possuído pela imagem da morte que em toda a parte o espia, e a recomendação permanente do suicídio, como saída definitiva [...] é menos evasão do que tentativa de vencer a morte pela própria morte. Qualquer oportunidade de ‘sair’ vale como caminho da liberdade.

Em face dessa moral do suicídio, não se compreende bem como tantos séculos puderam acreditar no cristianismo clandestino de Sêneca, inventando até um encontro dele com o apóstolo Paulo. Na verdade, Sêneca não foi influenciado pela religião cristã; foi, muito ao contrário, o cristianismo, em sua atitude ética, que foi profundamente influenciado pelo estoicismo de Sêneca, transformando porém o suicídio em martírio. O que Sêneca tinha em comum com os cristãos da Igreja primitiva era a angústia. A mesma angústia que invade as suas tragédias, alterando completamente o espírito dos seus modelos gregos, transformando-os em quadros grandiosos de tirania sangrenta, medo, pânico e terror sinistro.

A filosofia estoica de Sêneca é uma tentativa, apaixonada porque infrutífera, de vencer a angústia, que se exprime nas suas tragédias. Sêneca, como filósofo, está convencido da possibilidade de vencer o terror pela elevação espiritual [...]. Sêneca, como poeta, sabe o mundo povoado de demônios e de almas decadentes, já incapazes de resistir. Em versos notáveis anuncia a ‘última decadência dos tempos’, e a necessidade de morrer, sem temores, com este mundo”.

“[N]a sátira de Petrônio, sátira sem moralismo, [...] o satírico participa da moral do seu ambiente: novos-ricos, pederastas, parasitos, levando uma vida devassa em bordéis e estações de águas. [...] As intenções de Petrônio não são muito puras; parece que pretendeu ridicularizar a oposição burguesa e intelectual para agradar a Nero. Nós, porém, não temos motivos para acusá-lo de calúnia nem para indignar-nos com a licenciosidade das suas expressões. O ambiente de Petrônio é o das nossas capitais, da nossa ‘alta sociedade’. Apenas somos nós que nem sempre temos a coragem de dizer a verdade com o realismo do romano, nem a capacidade de exprimi-la com o seu riso espirituoso. A obra de Petrônio é de estranha e alegre atualidade. Se a obra completa de Petrônio fosse conservada, apareceria ele, talvez, maior do que os poetas da sua época. E dessa época poucos restam”.

“Somente no século II, quando o pesadelo do despotismo era desaparecido e a oposição política se tornara dispensável, é que os conformistas cínicos ou ingênuos desaparecem também; e surge, então, outra oposição mais radical. Em Juvenal, chega quase à força de expressão profética. Juvenal trata, nas suas 16 sátiras, os assuntos de Horácio: hipócritas devassos (sát. II), loquazes importunos na rua (III), efeminação dos ricos (IV), lascívia das mulheres (VI), literatos ridículos (VII), caçadores de heranças (IX), métodos errados de educar os filhos (XIV), orgulho dos militares (XV). Mas Juvenal não tem nada de Horácio; ou antes, Horácio não tem nada de Juvenal. Este estoico duro só pretende dizer a verdade, e neste afã encontra as palavras mais justas, mais definitivas. ‘Si natura negat, facit indignatio versum’; e a indignação não lhe negou as expressões de um profeta bíblico. Como um Amós ou um Jeremias, Juvenal sentou-se no alto da colina e viu a massa brutalizada, enfurecida pelas paixões mais baixas, dançando e gritando sem perceber a tempestade que se aproximava. Roma apresentou-se ao seu espírito excitado como um grande quadro histórico do século XIX, de Couture: uma aurora terrível, iluminando a sala cheia de mulheres embriagadas, homens esgotados, o vinho derramado por toda a parte. E Juvenal gritou – não contra o déspota, como o haviam feito Lucano e os intelectuais, mas contra a sociedade inteira. Juvenal é um tribuno irritado – se bem que apolítico –, um panfletista de eloquência torrencial e sem requintes poéticos, um profeta dos subúrbios de Roma, a voz da consciência romana. Os seus versos aliás fariam melhor figura em linhas de prosa”.

“[Q]uanto ao prosador Suetônio; é verdade que [em A vida dos doze Césares] ele conta os crimes horrorosos de um Tibério, de um Calígula, de um Nero, de um Domiciano, com a frieza de um autor de relatórios oficiais; então, crueldade e infâmia ressaltam tanto mais quanto os horrores são apresentados como as coisas mais naturais do mundo. Mas Suetônio, sem vontade de mentir, nem sempre disse a verdade. Caluniou Tibério, porque não entendeu nada da tragédia psicológica do imperador traído, e quem sabe quantas vezes Suetônio só notou a maledicência e as calúnias de cortesãos preteridos. Uma larga credulidade plebeia e a vontade de atribuir tudo aos ‘ricos’ [que] também se encontram em Juvenal”.

“Cumpre não esquecer que a literatura romana é de oposição sistemática. É uma literatura de elegíacos e satíricos, de invidualistas. Só assim se compreende a atitude de Tácito. Este grande romano foi interpretado pela posteridade como ele pretendeu ser interpretado: como advogado destemido da nação mais nobre contra a tirania mais infame. Mas não é tanto assim; e Tácito nos deixou um documento, escrito na mocidade, no qual revela os seus verdadeiros motivos. O Dialogus de Oratoribus, sive de causis corruptae eloquentiae, é uma conversa entre quatro advogados sobre a decadência da retórica romana: atribuem a responsabilidade dessa decadência aos métodos pedagógicos errados, ao mau gosto literário, à servidão política. Roma, é a conclusão, está em decadência irremediável, e a eloquência afunda-se com a cidade; é melhor deixar a prosa e retirar-se para a poesia. O estranho, no caso, é que Tácito não obedeceu ao próprio conselho. A decadência continuou assunto principal da sua atividade literária – mas sempre em prosa. Parece aristocrata, mas na sua época já não havia aristocracia; o despotismo nivelara tudo. Tácito é burguês e intelectual, preocupado com a decadência da retórica. É um moderado. A sua oposição é mais moral do que política; e por isso é oposição sistemática. [O] problema psicológico está no próprio autor e chama-se: o comportamento do indivíduo livre em face da tirania e do aviltamento geral. Tácito resolveu o problema pelas expressões do pessimismo mais profundo, e foi injusto: esqueceu que a sua época produzira um Tácito”.

Como parêntese, CARPEAUX faz um brilhante comentário sobre os escritores satíricos:

“No exagero profissional dos satíricos existe uma contradição: são pessimistas sistemáticos, acreditando na maldade permanente da natureza humana, e, por outro lado, são pessimistas imperfeitos, convencidos de que o homem é melhor em outras partes – na Germânia, de Tácito – ou que o homem foi melhor nos bons velhos tempos – na República, de Juvenal; só na própria época e na própria cidade do satírico a corrupção é enorme, a catástrofe iminente. É por força dessa contradição que o satírico tem razão de modo geral e é desmentido pelos fatos particulares”.

Luciano, natural de Samosata, na Mesopotâmia, é um jornalista [...]. Num diálogo seu, Deorum concilium, os deuses olímpicos, reunidos em conselho de emergência, deliberam providências contra a concorrência desleal dos deuses asiáticos importados. O próprio Luciano é produto de importação asiática. Não entende realmente a civilização grega, da qual se serve como os parasitos se servem da capa de filósofo. [...] No Somnium, diálogo autobiográfico, conta como lhe apareceram, em sonho, duas deusas, propondo-lhe rumos diferentes na sua carreira, e como ele abandonou a deusa da escultura para seguir a da ‘retórica’, quer dizer, a literatura e o jornalismo. Para isso, era mister tornar-se ‘filósofo’. Mas se os filósofos são todos uns charlatães? É porque o mundo, sob a lua, não é mais moral nem mais inteligente do que o Olimpo; quer ser enganado pelos falsos ‘intelectuais’ que se vendem a preço baixo – aparecem assim em De mercede conducti, autorretrato involuntário de Luciano.

O mundo de Luciano é um caos espiritual. O ecletismo filosófico de Plutarco, transformado em mercado de opiniões. O céu de Píndaro, transformado em Olimpo de Offenbach, de opereta. Tudo está de cabeça para baixo, revelando as suas vergonhas e ridículos. Visto do Hades (Menippus, Mortuorum dialogi) ou da Lua (Icaromenippus), o nosso mundo é um manicômio. Luciano é um grande humorista: Erasmo, Rabelais, Swift, Voltaire encontram nesse grego falsificado as melhores inspirações. Mas não é um satírico, porque não conhece critério moral. Não compreende aquilo de que zomba. Dá-se ares de Anti-Homero, mas não passa de animador de um show humorístico na qual homens e deuses dançam o último cancã do mundo greco-romano”.

“[O] romance Metamorphoseon seu Asinus aureus, de Apuleio, [...] é um panorama completo da época. [...] O romance parece autobiográfico, com as suas aventuras lascivas e vicissitudes de literato viajante, embora a insinceridade inata de Apuleio e a sua habilidade de narrador não permitam distinguir realidade e ficção, nem na sua ficção nem na sua vida. [...] Apuleio é um grande literato. É maior do que Luciano, porque tem um estilo próprio. Escreve um latim meio requintado, meio bárbaro, em que se misturam as frases feitas da escola retórica, as elegâncias do jornalismo grego, as fórmulas místicas do Oriente e a linguagem violenta de Tertuliano. É uma figura da época: o literato desarraigado que encontra a solução das suas angústias nos arrepios místicos do Oriente”.

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Depois de tantos nomes e tanta oposição “sistemática”, surgem aqueles que CARPEAUX considera, esses sim, “os últimos romanos”: Marco Aurélio e Boécio. Quanto ao primeiro, CARPEAUX nos diz:

“Existem vários autores de língua latina aos quais a posteridade conferiu o título honroso de ‘o último dos romanos’. Na verdade, no processo vagaroso da decomposição apareceram muitos ‘últimos romanos’ – o ‘realmente último’ será Boécio – mas o primeiro entre eles foi um grego: o imperador romano e escritor grego Marco Aurélio.

O imperador, educado por filósofos estoicos, era homem de ação e escritor ao mesmo tempo. Filósofo introspectivo e defensor corajoso das fronteiras setentrionais do Império contra os bárbaros. Morreu onde fica hoje a cidade de Viena, e em Roma erigiram-lhe uma estátua, a primeira estátua equestre de um imperador; passado não muito tempo, o monumento verá transformado o bairro de Latrão em ninho de malária e de ladrões. Tudo, no destino de Marco Aurélio, é paradoxo: o homem de ação por desespero, e escritor por firme resolução; sendo o último dos grandes individualistas romanos, anota os movimentos da sua alma solitária em língua grega. Mas, como ele dizia, ‘tudo o que te acontecerá estava preestabelecido assim, desde o começo, e a cadeia das coisas ligava firmemente a tua existência e o teu destino’.

Assim fala um estoico, cheio de fé na providência, ‘cujos germes se encontram em toda a parte’. Mas a doutrina estoica do ‘Sentido’, espalhado em germes por toda a parte, serve ao imperador romano, não para construir um universo ideal, e sim para justificar a própria existência de indivíduo isolado. Mas Marco Aurélio é romano; quer dizer, quando pensa, não escapa à trivialidade do lugar-comum. Mas dá testemunho de que, no fim da história romana, até o imperador se encontra sozinho em face da realidade impenetrável. E ela aparece-lhe na figura da Morte. O livro inteiro das Meditações foi escrito para afugentar a obsessão desse homem poderoso com a ideia da morte. A ideia estoica da coesão na Natureza, do determinismo razoável que rege tudo, não lhe serve para aprender a viver, e sim a morrer. Ao contrário do que muitas vezes se pensava, Marco Aurélio, que fez mártires, nada tem de cristão; o que o faz parecer cristão é a clemência meio indiferente de uma melancolia que ele sabe nada adiantar. Marco Aurélio soube exprimir esse pensamento banal em mil fórmulas, cada vez mais impressionantes, que fizeram do seu livro um breviário para os velhos, durante séculos a fio; a sua eloquência simples e convincente de uma ideia fixa revela a sinceridade de um grande poeta”.

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Na pasta de arquivos online, consta um PDF das "Meditações", de Marco Aurélio:
https://www.dropbox.com/home/Grupo%20de%20Estudo%20e%20Leitura%20dos%20Cl%C3%A1ssicos

quinta-feira, 21 de maio de 2015

Sétima leitura: "Eneida", de Virgílio

Segue um BREVE RESUMO da trama de ENEIDA, de Virgílio:

Enéias, troiano sobrevivente do massacre da cidade de Tróia pelos gregos (trama da Ilíada, de Homero), que havia fugido com seu pai, Anquises, seu filho Ascânio e sua mulher, Creúsa (que morre logo no início da fuga), na noite mesma em que os gregos, através do Cavalo de Madeira, adentraram e destruíram a cidade troiana, aporta agora nas praias da cidade de Cartago, governada pela Rainha Dido, que o recebe com júbilo (Canto I). Foi dito pelos deuses – e ele bem o sabe, já que é filho e protegido de Vênus (Afrodite) – que dele virá uma nova raça, grande e vitoriosa, da região do Lácio (Latium, em latim): Roma.

Logo no Canto II, a pedidos de Dido, Enéias narra tudo que aconteceu no fatídico dia da queda de Tróia. Após essas recordações, conta ainda tudo pelo que passou para chegar até Cartago, após deixar Tróia (Canto III). Dido, profundamente apaixonada por ele, convida todos para uma caçada, em meio à qual, sob forte chuva e sólidas paredes de uma caverna recôndita, ela e Enéias amam-se fervorosamente. O deus Mercúrio, a pedido de Júpiter (Zeus), vem lembrar Enéias de seu propósito e, nos dias seguintes, ele parte para sua missão, tentando de tudo para que Dido não o visse partir. Ela, que logo percebe, já abandonada desmonta em desolação e fúria, e se suicida (Canto IV).

Após celebrar jogos fúnebres em honra à morte de seu pai (Canto V), Enéias, fazendo uma escala em Cumas, encontra-se com uma sacerdotisa de Apolo e obtém dela a permissão para descer ao mundo dos mortos para falar uma última vez com seu pai (Canto VI). Seu pai lhe dá importantes detalhes sobre sua viagem e profetiza as glórias de Roma.

Enéias, enfim, chega à região do Lácio e logo encontra Latino, o Rei, que lhe oferece a mão de sua única filha e herdeira, Lavínia. Turno, Rei do povo rútulo, apaixonado por ela, não se conforma (Canto VII). A Enéias é aconselhado unir-se a Evandro, um ancião da cidade, na guerra contra os rútulos; ambos selam um pacto de ajuda entre latinos e troianos. Enéias recebe de Vênus, sua mãe, um escudo confeccionado pelo deus Vulcano, no qual há figuras de glórias futuras de Roma (Canto VIII).

Ausente, porque havia ido pedir abrigo aos etruscos a conselho de Evandro, Enéias não vê Turno incendiar a frota dos troianos, que, no entanto, permanecem todos a salvo (Canto IX). Enéias retorna, após longa narrativa de uma assembleia entre os deuses, e descobre a morte de Palante, filho de Evandro, pelas mãos de Turno, que ficou com suas armas (Canto X). Enéias envia o cadáver de Palante a Evandro e chora com ele sua morte (Canto XI). Marcha, contudo, para a batalha final com Turno.

Júpiter e Juno (Zeus e Hera) decidem o desfecho de tudo: os latinos se unirão aos troianos na fundação de Roma e Enéias vencerá Turno na grande batalha, o que de fato acontece. Enéias, com Turno a seus pés, prestes a poupar-lhe a vida, vê brilhar nele a armadura de Palante; convencido do que fazer, desfere no rútulo o golpe fatal. É o fim da Eneida.

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Na pasta de arquivos online, consta um PDF com os 4 primeiros cantos da Eneida, na tradução de Carlos Alberto Nunes:
https://www.dropbox.com/home/Grupo%20de%20Estudo%20e%20Leitura%20dos%20Cl%C3%A1ssicos

Os poetas romanos

Falando rapidamente dos três primeiros poetas romanos dignos de nota, Catulo, Propércio e Tibulo, os comentários de CARPEAUX podem se resumir no seguinte:

Catulo é um poeta muito humano. A ele também, nada de humano foi alheio [...]. Catulo é, no primeiro século antes da nossa era, um poeta moderno. É, entre os poetas, o primeiro que se comove com a paisagem. [...] Dos outros elegíacos romanos, só Propércio se compara um tanto a ele. A imitação dos modelos gregos sufoca-o. É um decadente. Complica os assuntos com multidão de alusões mitológicas, perde-se em confusões sintáticas; a sua linguagem é a mais obscura e difícil de todos os poetas romanos. [...] Propércio é artista; menos nas tentativas de solenes elegias patrióticas [...] do que na música extraordinária das suas palavras. [...] Enfim, quanto a Tibulo, é forçoso confessar que não somos capazes de formar uma ideia bem clara da sua poesia. [...] É confuso como Propércio, mas muito mais suave [...]. Tibulo é, entre os elegíacos, o mais elegíaco”.

“A injustiça evidente da preferência dada a Tibulo explica-se pela modificação semântica que a acepção da palavra elegia sofreu. Propércio é elegíaco; mas não é ‘elegíaco’ sentimental. Com mau gosto infalível, a posteridade elegeu Ovídio, o mais sentimental entre os elegíacos romanos, excessivamente sentimental porque desiludido pela própria fraqueza, e conferiu-lhe uma glória póstuma sem par. ‘Sentimentalismo é sentimento, comprado abaixo do preço’ – a frase de Meredith aplica-se bem a Ovídio”.

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Quanto a Ovídio, CARPEAUX diz:

“A diversidade das suas obras revela o virtuose. Sabe fazer tudo. Cria, nos Amores e nas Heroides, cartas imaginárias de amantes famosos, uma ‘teoria do amor’ que exercerá influência profunda nos troubadours da Idade Média. Cria até, na Arte de Amar, uma verdadeira estratégia da conquista erótica, e logo depois, nos Remedia Amoris, a estratégia da ‘libertação’. Os Fastos acompanham com pequenas poesias narrativas o calendário das festas romanas; ao lado de idílios encantadores, aparecem versões fastidiosas de episódios patrióticos – é pela segunda vez, depois de Propércio, que encontramos isso. As Metamorfoses regalam-nos com uma multidão de contos mitológicos bem conhecidos, conhecidos até demais: Vênus e Adônis, Faetonte, Píramo e Tisbe, Perseu e Andrômeda, Eco e Narciso, Ícaro, Níobe, Orfeu, Midas, Dáfnis, Filêmon e Baucis, Polifemo e Galateia. Ovídio contaminou a literatura universal, fornecendo-lhe assuntos tediosos; enfim, o tédio tornou-se seu próprio destino. Exilado, por motivo de qualquer affaire de femme, para a região bárbara do Mar Negro, mandou para Roma suas elegias sentimentais: as Tristes e Epistolae ex Ponto. São comoventes. Mas Ovídio não é um poeta sério. Nele perdeu-se, pela ambição do mitologismo falso, um notável poeta ligeiro, talvez um humorista à maneira de Heine ou Musset. Contudo, não são nomes desprezíveis estes, embora não convenha colocá-los ao lado de Goethe e Racine. Mas foi justamente isso o que aconteceu com Ovídio. A posteridade tomou-o a sério: já o lê nas escolas a mocidade, há quase doze séculos. Os meninos não lhe compreendem o erotismo; os adultos não lhe compreendem a malícia. Do outro mundo, Ovídio poderia repetir o que gemeu entre os bárbaros do Oriente onde ninguém lhe compreendeu a língua: ‘Barbarus hic ego sum, quia non intelligor ulli’ [Sou um bárbaro neste lugar, aqui onde ninguém me entende]. É um artista elegante, um parnasiano à maneira de Banville”.

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Quanto à poesia destes que são tidos como os maiores poetas romanos – Ovídio, Horácio e Virgílio –, CARPEAUX explica suas opiniões, que podem soar um tanto controversas a princípio:

“A desporporção ovidiana entre assunto e estilo é um fenômeno geral da literatura romana; é reflexo da desproporção entre a realidade romana e a literatura latina. As tentativas de poesia patriótica em Propércio e Ovídio são sintomas de uma crise aguda dessa convivência, daquele momento transitório que foi considerado pela posteridade como época de apogeu da literatura latina; a ‘época augustana’. Por isso, aconteceu que os lugares de maiores poetas romanos, devidos a Lucrécio e Catulo, couberam, na tradição dos séculos, a Horácio e Virgílio.

O restabelecimento da paz por Autusto parecia tornar possível a conjunção dos esforços políticos e culturais. A proteção que Mecenas deu às letras é uma tentativa de conseguir artificialmente a unidade das realidades material e espiritual, própria dos gregos. O Estado romano esperava os seus Homeros e Píndaros. A literatura latina, porém, por força das suas origens, é individualista e elegíaca. A dois grandes poetas menores, Horácio e Virgílio, coube a tarefa de realizar uma poesia maior. A consequência foi o artifício sublime: o classicismo”.

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Quanto a Horácio, diz CARPEAUX:

Horácio é, talvez, o maior entre os poetas menores: sensível sem sentimentalismo, alegre sem excesso, espirituoso sem prosaísmo. Para falar em termos da filosofia antiga, é um eclético, como Cícero e quase todos os romanos: dado ao gozo epicureu da vida, é capaz de atitudes estoicas. Verifica-se certa ambiguidade em Horácio, e esta, aliada ao domínio perfeito e até virtuoso da língua e de todos os metros da poesia grega, criou um poeta autêntico. [...] Não é o maior, mas o mais completo dos poetas romanos. Os quatro livros de Odes constituem a coleção mais variada de poesias.

[...] Horácio é um anacreôntico, um epicureu ligeiro, um irônico polido e elegante. O grande moralismo político não é o seu lado mais forte. É menos poeta do que artista, virtuoso admirável da construção de poemas, da eurritmia do verso, dos metros complicados. Não é gênio titânico. É um poeta culto, ligeiramente epígono, ligeiramente romântico. E não só culto, mas que sabe viver, e que se retira, em tempos de guerra civil e perturbação social, para a vila no campo e para a poesia. Estaremos em presença de um evasionista? Não. Ele é antes um grande egoísta. São apenas os seus prazeres e as suas melancolias que o preocupam. Nas tempestades do mundo lá fora, Horácio conserva a cabeça e o bom senso: o que importa é o homem, o indivíduo. Não é romano típico, mas é poeta romano típico.

Horácio é o poeta culto entre e para os poetas cultos, um ‘poet’s poet. [...] Criou uma infinidade de versos memoráveis, expressões inesquecíveis; e se se tornaram frases feitas e lugares-comuns, não é sua culpa, e sim a sua glória, o seu ‘monumentum aere perennius’. Horácio criou um dicionário poético e uma língua poética comuns à humanidade inteira.

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Quanto ao historiador Tito Lívio, CARPEAUX nos diz:

“Virgílio morreu antes de terminar a última redação dos versos da Eneida; e da obra histórica de Tito Lívio, Ab urbe condita, só possuímos fragmentos: os livros I – X e XX – XLV, tratando dos anos 753 – 293 e 218 – 167 da nossa era, e ainda com lacunas. Isso não tem grande importância, porque as duas obras, nascidas do mesmo impulso de idealizar a história romana, se completam.

É difícil imaginar perfeição maior que os versos virgilianos; e quanto às lacunas em Lívio, a perda da historiografia não é muito sensível. Lívio não é uma fonte de primeira ordem. É inexato, não tem espírito crítico, aceita lendas e invenções patrióticas, vê tudo do ponto de vista de um aristocrata romano, não tem perspectiva histórica. Gosta de engrandecer os acontecimentos, como se a cidadezinha bélica, meio selvagem, dos primeiros tempos já tivesse sido a ‘Urbs’ do Império. São resultados dessa teatralização os famosos episódios que conhecemos da escola – Rômulo e Remo, o rapto das Sabinas, os Horácios e Curiácios, a morte de Lucrécia, a revolta de Coriolano, a virtude cívica de Cincinato, Ápio e Virgínia, a invasão dos gálios, Aníbal ‘ante portas’ e em Cápua, a morte de Sofonisba e a obstinação de Catão.

À idealização da história romana corresponde o estilo solene, às vezes poético, quase sempre monótono. Lívio escreve o comentário em prosa daquelas odes patrióticas. Na escola, serve ainda como espelho de feitos do mais alto patriotismo; e tornou-se modelo internacional quando a historiografia moderna começou a escrever a história nacional das pátrias europeias.

[...] Lívio inventou só onde não havia fontes; teve de inventar, porque os romanos haviam esquecido a sua própria história primitiva. E o moralismo de Lívio torna-se suportável pela ligeira melancolia de um espírito aristocrático que sabe decadente a moral da sua própria época. Afinal, não pretendeu dar historiografia exata, mas uma história exemplar; não como foi, mas como devia ser. Fê-lo de maneira tão discreta que épocas posteriores puderam interpretá-lo de maneira anacrônica, tirando das suas lendas os axiomas da mais alta sabedoria política. Não há outro historiógrafo que possa gabar-se de comentadores como Maquiavel, Vico e Montesquieu. A história ideal dos romanos transformou-se em história ideal da Humanidade”.

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Quanto ao mais consagrado e tido como maior poeta romano, Virgílio, autor da Eneida, fala-nos CARPEAUX o seguinte:

“O mesmo idealismo prejudicou a poesia de Virgílio. O gênio do idílio realista não conseguiu o realismo homérico; só o idealizou. Mas quase criou, com isso, uma poesia ideal.

Para provar a primeira parte da tese – o realismo inato de Virgílio – não é preciso afirmar a autenticidade duvidosa do idílio ‘Moretum’, descrição exata da preparação de uma refeição de camponeses. Basta comparar as Bucólicas e as Geórgicas. As Bucólicas, obra da mocidade, já dão testemunho da predileção de Virgílio pela poesia rústica [...]. Mas Virgílio não é homem dos campos; tem apenas a nostalgia do homem urbano pela vida rústica, que [...] lhe aparece como ‘ócio’, o que é significativo.

O estilo corresponde a esse erro melancólico: é melódico e altamente artificial. Virgílio é responsável pelas inúmeras éclogas da Renascença, com os seus pastores amorosos e as alusões a acontecimentos políticos que preocupam os poetas. Em comparação, o poema didático Geórgicas é realista num sentido elevado. Realismo classicista, talvez realismo clássico. Aí, também, não estão ausentes as preocupações políticas: Virgílio faz propaganda da reagrarização da Itália, pronunciando-se contra o latifúndio, para salvar a ‘justissima tellus’. Mas as descrições da agricultura, da vida das árvores, da criação de gado, da apicultura, são de um realismo sereno [...]. É uma paisagem altamente humanizada, à qual Virgílio está saudando.

[...] A esta ‘Mãe Itália’ está dedicada a Eneida. Comparações com Homero, provocadas pela imitação manifesta, não são, no entanto, convenientes. O espírito é diverso. O estilo ‘rápido, direto e nobre’ é substituído por certa dignidade melancólica e monótona; o espírito bélico, pelo civismo e senso de justiça; o antropomorfismo, pela fria religião de Estado. Mas Virgílio é o que Homero não foi e não podia ser: é artista. Um artista incomparável do verso, da música das palavras. As expressões poéticas do imperalismo romano estão como que envolvidas no ‘altum silentium’ da música virgiliana.

Sol e lua da Itália real levantam-se e põem-se – ‘fugit irreparabile tempus’ – sobre personagens pálidas e acontecimentos penosamente inventados. A tarefa de inventar uma tradição oficial do Império Augustano inspirou ao poeta uma utopia das virtudes políticas dos romanos, quase já uma política cristã. A Idade Média cristã, encantada pelos amores de Dido e Eneias, não viu esse aspecto de Virgílio; só Dante o adivinhou, após a derrota da sua própria utopia política – e por todos os séculos depois ecoou o verso modesto e profético: ‘Forsan et haec olim meminisse juvabit’ [Talvez um dia nos dê prazer recordar essas coisas].

“A Virgílio aplica-se, mais do que a outro qualquer poeta, a distinção de Schiller entre ‘poesia ingênua’ e ‘poesia sentimental’. Virgílio não é nada ingênuo, e desde que o romantismo descobriu o gênio na poesia popular e de boêmios indisciplinados, a glória multissecular de Virgílio empalideceu. Em comparação com o ‘gênio popular’ Homero, Virgílio foi considerado como poeta da decadência, de falsa dignidade, incapaz de representar a vida real. É verdade que Virgílio pertence a uma época de decadência; e é justamente por isso que não quer reproduzir a realidade que lhe pretendem impor. É artista, inventa um mundo ideal, melhor, superior. Apresenta-nos santos e heróis artificiais, porque não existem outros. Não como romano, mas como intelectual romano, Virgílio é da Resistência. Opõe ao caos moral da sua época os ideais do trabalho rústico [...], da justiça imparcial [...] e do amor ao próximo [...].

A ideia central da sua obra inteira é a utopia de uma ‘aetas aurea’: utopia romântica nas Bucólicas, utopia social nas Geórgicas, utopia política na Eneida. Sente, com amargura melancólica, a distância entre esse ideal e a sua época crepuscular [...], e qualquer acontecimento insignificante, como o nascimento de uma criança, lhe sugere logo esperanças indefinidas de um futuro melhor, como naquele verso – ‘Magnus ab integro, saeclorum nascitur ordo’ [Eis que nasce uma era toda nova] – da Écloga IV das Bucólicas. Então, aquele crepúsculo melancólico aparece como aurora esperançosa de uma nova era, e o poeta pagão Virgílio, insatisfeito com a religião oficial e os sistemas filosóficos, ergue a voz como um profeta no Advento.

Com efeito, todos os séculos cristãos interpretaram a Écloga IV como profecia pagã do nascimento do Cristo. Compararam-se as viagens mediterrâneas de Eneias às do apóstolo Paulo, a fundação da Urbs à da Igreja. Lembrou-se a unificação do Império Romano por Augusto, o soberano de Virgílio, como condição indispensável da missão do cristianismo. A Idade Média não sabia explicar a profecia e o gênio de Virgílio senão transformando-o em feiticeiro poderoso, em herói de inúmeras lendas; em Dante, Virgílio já é o representante da ‘Razão’ pagã, não batizada, mas ‘naturaliter christiana’ e iluminando todo o mundo latino e católico.

Chamaram a Virgílio ‘pai do Ocidente’. Virgílio é ‘pai do Ocidente’ num sentido muito amplo. O seu ideal do ‘labor’ está na disciplina dos monges de S. Bento, união do trabalho nos campos e do trabalho intelectual; e o seu ideal do ‘otium’ está na dedicação dos humanistas à ciência desinteressada. Até a música dos seus versos melancólicos ensinou a todas as épocas a transformação da angústia em arte. Homero é maior, sem comparação; mas é Virgílio que nos convém”.

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Retomando suas justificativas quanto à poesia romana, CARPEAUX conclui:

“A posição de Horácio e Virgílio dentro da literatura romana é diferente da que ocupam na literatura universal. As inúmeras tentativas, em todas as épocas e literaturas, de imitar a ode solene de Horácio e a epopeia heroica de Virgílio, não foram, as mais das vezes, bem sucedidas. A verdadeira influência dos poetas está na elaboração de um tom poético finamente humano e expressivo, na sátira horaciana e na écloga virgiliana. Na literatura universal, Horácio e Virgílio são os maiores entre os poetas menores. Na literatura romana, são os últimos poetas ‘maiores’. Com eles, acabam as tentativas de poesia de interesse coletivo. Desde então, toda a literatura romana está na oposição. É possível interpretar essa oposição como resistência da gente culta contra o despotismo dos Césares [...]. Contudo, essa oposição não é um fenômeno transitório nem meramente político; exprime o caráter íntimo da literatura romana, que só durante poucos decênios, imediatamente antes do começo da nossa era, acreditava na possibilidade de penetrar na realidade hostil, retirando-se depois para a região na qual individualismo, intelectualismo, temperamento elegíaco e resignação estoica se encontram”.

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